Especialista canadense defende que a informação em poder de um governo não pertence ao Estado, mas à população
Sexta, 16 de Março de 2012, 03h08
LISANDRA PARAGUASSU / BRASÍLIA
Em visita ao Brasil para preparar a 15.ª Conferência
Internacional Anticorrupção, em novembro, a presidente da Transparência
Internacional, Huguette Labelle, elogiou o avanço que o Brasil tem feito
nos últimos anos com leis como a de Acesso à Informação e a da Ficha
Limpa. "É mais fácil olhar para frente que para o passado, mas quando as
informações são mantidas secretas as pessoas ficam com muitas dúvidas",
disse a especialista canadense, ao ser questionada sobre a resistência
de setores das Forças Armadas a abrir seus arquivos.
Para ela, o
Brasil precisa ter claro um princípio: a informação não pertence ao
governo, mas à população. "A população tem o direito de saber", disse
Huguette ontem, ao Estado.
Que avaliação a sra. faz do grau de transparência no Brasil?
O
Brasil fez um enorme trabalho nos últimos anos ao estabelecer as leis
necessárias e novas maneiras de ser transparente, o que o coloca num
avanço contínuo em relação a outros. A maneira como orçamentos e gastos
são publicados, de forma diária, está à frente de muitos países. Também
há vários projetos de lei importantes no Congresso que esperamos que
sejam aprovados. Em particular, o que trata da responsabilidade das
organizações em casos de corrupção, a lei que regulamenta o lobby. A
implementação de tudo isso é muito importante.
A Justiça
brasileira é famosa pela lentidão e esse talvez seja um dos principais
problemas para lidar com a corrupção. O que precisa ser feito?
Temos
nas democracias modernas um sistema muito forte tentando proteger os
indivíduos. E, com isso, vários níveis de recursos. Inicialmente, isso
pode ter parecido uma boa ideia, mas na prática cria uma situação como a
atual, em que não há um fim para o que um advogado de defesa pode fazer
para adiar um julgamento até que o crime prescreva, até que as
testemunhas morram, até que as evidências desapareçam. Passa a ideia de
impunidade. É necessário um mecanismo que permita a defesa justa, mas
que não se torne um abuso do sistema. Também é preciso maior
transparência sobre a forma como são tomadas as decisões.
O
Brasil aprovou recentemente sua primeira lei de informação pública, mas
alguns setores ainda têm resistência. Os militares falam em um clima
revanchismo.
Alguns setores são mais complicados porque sempre
foram mais fechados. Defesa é um, segurança, outro. Mas acredito que
chegar ao fundo dessas informações tem efeito de cura. Sempre digo que a
informação que um governo possui não pertence a ele, pertence à
população. A população tem o direito de saber. É mais fácil olhar para
frente que para o passado, mas quando as informações são mantidas
secretas as pessoas ficam com muitas dúvidas.
A senhora
conversou com a presidente Dilma Rousseff sobre a Lei da Ficha Limpa e
elogiou a medida. No entanto, ela é prevista apenas para cargos
eletivos, não para indicações do governo.
Seria muito importante
que esse tipo de regime fosse aplicado também a quem é indicado para
cargos do Executivo. Porque se pessoas são acusadas de algum tipo de
crime e no dia seguinte se tornam um alto dirigente, isso não é bom para
o País. Para garantir que as pessoas confiem nas instituições é preciso
ter dirigentes com alto grau de integridade.
A senhora salientou a evolução do Brasil. E daqui para frente?
O
Brasil terá de lidar com a questão do financiamento de campanhas
políticas, que tem papel importante no controle da corrupção. É preciso
encontrar maneiras de assegurar que pessoas não sejam cooptadas por quem
doa muito dinheiro às campanhas. Outro ponto é garantir que governos
municipais funcionem com absoluta integridade, que nenhum recurso se
perca, que o dinheiro vá para os serviços, que os contratos sejam
limpos. Essa é uma fronteira que em todo mundo requer atenção especial.
Fonte: Estadão
Fonte: Estadão
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