Dourado: o progresso chegou, mas deixou para trás uma história que não volta.
O movimento começava nas primeiras horas da manhã. Caminhões percorriam pontos determinados da cidade para embarcar os trabalhadores que seguiam para as fazendas. Na Padaria Francesa, a fila era grande para garantir o pão quentinho. Era uma rotina simples, mas que revelava uma cidade economicamente ativa, integrada ao campo e com uma identidade própria.
E como esquecer a telefonia daqueles tempos? Quando precisávamos fazer uma ligação para São Paulo ou qualquer outra localidade, recorríamos à telefônica local. A pressa pouco adiantava: uma ligação poderia demorar horas ou até mesmo ser cancelada.
Guardo na memória as atenciosas telefonistas Elzinha, Nancy, Taconelli, Lena e Dona Maria. Privacidade durante uma conversa? Praticamente impossível! Era preciso gritar diante da cabine para que a pessoa do outro lado pudesse ouvir. E, naturalmente, todos que aguardavam sua vez acabavam sabendo do assunto. Eram outros tempos, com suas dificuldades e também suas peculiaridades.
O desenvolvimento chegou, trouxe modernidade, facilidades e avanços inegáveis. Mas também provocou mudanças profundas.
O comércio tradicional passou a enfrentar dias difíceis, perdendo espaço para as grandes redes e para o comércio eletrônico, como o Mercado Livre. As terras que antes abrigavam uma agricultura diversificada deram lugar, em grande parte, à monocultura da cana-de-açúcar. A pecuária leiteira perdeu espaço e migrou para outros municípios. As colônias das fazendas ficaram vazias, enquanto a cidade cresceu em construções e habitações.
Não se trata de negar o progresso, muito menos de ignorar os benefícios da modernidade. Trata-se de reconhecer que, junto com ela, desapareceram atividades, costumes, relações comerciais e um modo de vida que davam identidade à região.
Quem viveu aquela época guarda enormes saudades. Quem não a conheceu perdeu a oportunidade de experimentar uma fase singular da história de Dourado.
Talvez o verdadeiro preço do desenvolvimento não esteja apenas naquilo que mudou, mas principalmente naquilo que deixamos desaparecer pelo caminho.
OBS: Em 1928 a população de Dourado era de 20 mil habitantes.
Fotos ilustrativas: Luiz Fernando Varella






































