O Estado de S.Paulo
Ainda que se compre pelo valor de face a inverossímil
alegação do ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Nelson
Jobim, de que promoveu o encontro do ministro e ex-presidente da Corte
Gilmar Mendes com o ex-presidente Lula, a pedido deste, porque "gostava
muito dele e o ministro sempre o havia tratado muito bem", o acatamento
da solicitação foi um grave lapso moral. O seu ex-chefe (Jobim foi
ministro da Defesa entre 2007 e 2011) que encontrasse outra via para
transmitir a tardia gratidão ao magistrado.
Gilmar, por sua vez, errou ao aceitar a reunião. Ministros da Suprema
Corte, tendo numerosos compromissos derivados de sua condição, não raro
se encontram com outras autoridades, políticos, empresários e figurões
em geral. Nada haveria de repreensível se, numa dessas ocasiões, Lula o
abordasse para lhe dizer o que, segundo Jobim, teria querido dizer. Mas
se então ouvisse do ex-presidente as palavras que lhe foram atribuídas
pela revista Veja na reunião de 26 de abril no escritório de Jobim,
teria de se retirar imediatamente.
Afinal, mesmo que o seu ex-colega não lhe tivesse adiantado o assunto
sobre o qual Lula queria conversar, o ministro tinha tudo para
adivinhar que se trataria do julgamento do mensalão, previsto para
começar em agosto. Em qualquer país, raros são os que recusam convites
para um tête-à-tête com um ex-chefe de Estado. Mas, por todos os motivos
concebíveis, Mendes deveria ter sido uma daquelas exceções. Depois,
tendo sido como foi noticiado o diálogo entre eles, não se entende por
que o ministro levou tanto tempo para fazer chegar a história à
imprensa.
Se ficou perplexo "com o comportamento e as insinuações
despropositadas" de Lula, como afirma, deveria dar-lhes sem demora a
merecida resposta pública. Bastaria a enormidade do acontecido. Se o
escândalo do mensalão não tem precedentes, tampouco se tem notícia de um
ex-presidente da República procurar um membro do Supremo Tribunal para
dizer-lhe que considera "inconveniente" o julgamento próximo de uma ação
que o alcança politicamente. A inoportunidade - teria alegado Lula -
viria da coincidência com a campanha para as eleições municipais deste
ano.
Não podendo remeter às calendas o julgamento de um processo aberto há
sete anos contra a cúpula do PT, além de outros companheiros e seus
sócios na "organização criminosa" de que fala a denúncia do Ministério
Público, Lula quer empurrar o desfecho para depois da aposentadoria de
dois ministros, o atual presidente Carlos Ayres Britto e Cezar Peluso,
que tenderiam a votar pela condenação dos réus mais notórios. Tivesse
Lula ficado nisso, já teria superado as próprias façanhas em matéria de
indecências políticas.
Mas, além disso, ele não só teria ofendido o relator Joaquim Barbosa,
chamando-o de "complexado"; teria avisado que incumbiria o ex-ministro
Sepúlveda Pertence de "cuidar" da ministra Carmem Lúcia para que ajude
no adiamento; e contado que pediu ao ministro José Dias Toffoli que não
se declarasse impedido por ter sido assessor jurídico da Casa Civil, ao
tempo de José Dirceu; como praticamente chantageou o interlocutor, ao
oferecer-lhe proteção na CPI do Cachoeira, que teria se gabado de
controlar. Proteção, no caso, contra alguma tentativa de convocá-lo a
explicar as suas relações com o senador Demóstenes Torres, parceiro do
contraventor.
Quando Mendes disse que elas sempre se deram nos limites
institucionais, Lula teria perguntado algo como: "E a viagem a Berlim?".
Os dois, de fato estiveram na capital alemã, onde mora a filha do
ministro, e a viagem teria sido paga por Cachoeira - o que Mendes negou
veementemente, e batendo na perna de Lula desafiou: "Vá fundo na CPI!". A
revelação do ultraje levou os ministros Marco Aurélio Mello e Celso de
Mello a condenar o ex-presidente da República nos termos mais duros,
compatíveis com o extremo a que levou o seu despudor - algo
"inimaginável", estarreceu-se Marco Aurélio. O seu colega, decano da
Corte, criticou o "grave desconhecimento (de Lula) das instituições
republicanas". Se ele ainda fosse presidente, resumiu com exatidão,
"esse comportamento seria passível de impeachment".
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