sábado, 15 de outubro de 2011

Remodelação da Avenida da Saudade: Oportunidade, Patrimônio e Futuro

*Luciana Mascaro

A obra de remodelação da Avenida da Saudade em Dourado-SP representa uma oportunidade de valorização do patrimônio da cidade. Vai começar a ser realizada nos próximos dias. Parte desse patrimônio já é reconhecido em nível estadual, através do tombamento, pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico do Estado de São Paulo) da EMEF Senador Carlos José Botelho.

Na região da escola, a Praça e a Igreja Matriz também constituem o patrimônio histórico, arquitetônico e paisagístico dos cidadãos douradenses e têm valor indiscutível. É possível lembrar de outros pontos importantes da cidade, que existem ou que desapareceram. Por exemplo, a Estação Ferroviária e a ferrovia que, se não tivessem valor, não seriam motivo de homenagem na... rodoviária.

Todos esses lugares e prédios, que têm valor hoje, foram criados para responder às necessidades do passado e continuam a servir. Assim, podemos nos perguntar se as decisões tomadas hoje terão alguma consequência positiva no futuro.

Por exemplo, podemos nos perguntar se o novo projeto para a Avenida da Saudade vai valorizar a cidade de amanhã. Ou vai apenas remediar alguns problemas do presente. De que forma o projeto leva em conta o problema do trânsito e da qualidade de vida na cidade?

Trânsito – O novo projeto para a Avenida da Saudade vai alargar suas faixas de rolamento. Esse espaço “a mais” será destinado apenas aos automóveis? Muita gente circula a pé ou de bicicleta pela cidade... O que vai ser feito para eles nessa obra de remodelação? O transporte público foi considerado? E como a velocidade vai ser controlada em ruas mais largas?

A Prefeitura informa que a obra vai melhorar o escoamento de água e a segurança dos usuários: motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres. Ótimo! Mas como?

Cada modo de circular exige espaços e velocidades diferentes. Por isso, se apenas os automóveis forem considerados no planejamento urbano, haverá conflito. Andar a pé será difícil, andar de bicileta será perigoso e assim por diante. E cada um de nós pode circular de maneiras diferentes num mesmo dia. Ser pedestre ou motorista são condições variáveis.

Qualidade de vida - Podemos lembrar da arborização da cidade como parte do patrimônio municipal extinto. Com certeza, muita gente se lembra de áreas arborizadas e que foram desaparecendo ao longo do tempo. Será que ainda existem fotos dessas áreas? (fotos são benvindas, encaminhem para o e-mail de contato para formação de um arquivo e para publicação no blog).

Muitos vão dizer que, se as árvores foram derrubadas, é porque existiram motivos: problemas com rede elétrica, com a destruição das calçadas pelas raízes, com idade das árvores etc. Sim, mas por que não investir num projeto de arborização hoje, que será benéfico no futuro?

As áreas verdes têm impacto direto no aumento da qualidade de vida de uma cidade. Além de bonitas, essas áreas mantém a temperatura agradável, atraem a fauna e contribuem para o bem estar e a saúde da população. Atualmente, o imenso valor patrimonial de áreas urbanas arborizadas e verdes é reconhecido e protegido.

Por exemplo, quem não conhece a rua Voluntários da Pátria (Rua 5), em Araraquara? O corredor formados por Oitis dos dois lados da calçada foi tombado pelo órgão de proteção do patrimônio municipal e hoje atrai turistas. Outro caso parecido é o da rua Gonçalo de Carvalho, em Porto Alegre (RS), também tombada como patrimônio municipal. É constituída por uma fileira de Tipuanas de cada lado da calçada que se estendem por quase 1km.

As ruas citadas sobrevivem porque moradores se mobilizaram para não permitir sua destruição! Se não tivessem valor ninguém se daria ao trabalho de defendê-las!
Oportunidade - E o que isso tem a ver com a remodelação da Avenida da Saudade? Ela oferece uma oportunidade de plantar, no sentido figurado e no sentido real. Essa avenida merece uma reestruturação que inclua um projeto de arborização urbana e que considere outras formas de circular além do automóvel.

Esses dois itens melhorariam imensamente a vida dos cidadãos. Agregariam valor ao patrimônio municipal, pois a avenida é a “porta de entrada” da cidade. E, finalmente, seriam um sólido investimento no futuro. Imaginem o que seria a cidade sem a Igreja Matriz ou sem a EMEF Senador Carlos José Botelho...

Embora ainda não existam projetos para áreas verdes e para arborização urbana, é animador ver a Prefeitura anunciar melhorias para pedestres e ciclistas.

O dinheiro público deve ser empregado em obras duradouras. O projeto a ser realizado agora será defendido e protegido no futuro. Ou será esquecido, refeito... A oportunidade está aí. A decisão é dos políticos e dos cidadãos.
 
* Luciana Mascaro - Arquiteta e Urbanista pela EESC-USP, com doutorado em Teoria e História da Arquitetura e do Urbanismo pela mesma escola. Trabalhou como Diretor do Departamento de Patrimônio Histórico de Jaú (SP) e como pesquisador na Fundação Calouste Gulbenkian e na Universidade do Minho, Portugal. Colaborou no CIVA (Centre International pour la Ville, l’Architecture et le Paysage), em Bruxelles, Belgica. 
Fonte: Blog: Minha Cidade Presisa de... 

3 comentários:

cezar davoglio disse...

Concordo plenamente com a Douradense Luciana Mascaro a respeito da abordagem que faz com muita competência e maestria sobre a nossa Avenida da Saudade.
Ontem e hoje fui conhecer de perto as obras de pavimentação da avenida.
Com todo respeito e admiração que tenho pela amigo Edmur e até por isso, tomo a liberdade de sugerir que ele interrompa esta obra por alguns dias, convoque todos os interessados e responsáveis pelo projeto, para melhor analisar, planejar e corrigir as falhas e erros de engenharia existentes (divulgados neste blog, alertados pela Luciana, expostos e visíveis), enquanto é tempo.
Caso contrário, como bem disse a Luciana " O projeto a ser realizado agora será defendido e protegido no futuro. Ou será esquecido, refeito... A oportunidade está aí. A decisão é dos políticos e dos cidadãos".
Coloco-me à disposição para ajudar Dourado!
Cezar Davoglio
Douradense e Engeheiro Civil

Luiz Cesar disse...

Talvez o que o Cezar disse seja uma saída: interromper as obras e avaliar as possíveis consequencias para o futuro. Como o Ronco mesmo disse neste blog, quem garante que daqui há algum tempo os problemas não irão aparecer? A infiltração de águas de chuvas foi muito grande através das calçadas que ainda não foram refeitas. Essa água está lá em baixo solapando o asfalto. Pode não aparecer neste momento, porém no futuro com certeza o problema virá. Não se faz uma obra nessas condições. Onder estão os encarregados de acompanhar a obra? Não viram isso tudo? Demorou tantos anos para isso e agora fazem de qualquer jeito? Alguns caneletões que foram construídos recentemente com concreto estão piores que antes, pois para água formando poças enormes. Tudo feito sem projeto e sem acompanhamento. É uma pena!

Lu Mascaro disse...

Por falar em "ajudar Dourado", existe uma proposta de homenagear o sr. Tanaka dando seu nome ao coreto da Praça da Matriz... Publiquei a proposta no "minha cidade precisa de..."