O 7º dia dramático dos motociclistas que se aventuraram ao passeio rumo a Cuzco no Perú. Veja o relato de um dos integrantes do grupo, o Luiz Fonseca.


Diário de Bordo (Luiz Fonseca)
A sexta feira amanheceu escura chuvosa e um tanto quanto assustadora. Parecia que uma nuvem preta estava concentrada sobre as nossas cabeças.
Um dos motociclistas, o Luiz, que já vinha viajando com muita tosse e estava sentindo fortes dores nas costas, tomou a decisão de deixar a sua motocicleta em Puerto Maldonado e ir no carro de apoio.
Por volta das oito horas, horário local, o grupo partiu com destino a Cuzco. As motocicletas trafegavam tranquilamente na frente da camionete de apoio e aos poucos a chuva foi amenizando e começamos a acreditar que o presságio de um dia difícil não se concretizaria. Que impressão errada!
A primeira centena de quilômetro nos levava através da floresta amazônica peruana, que por sinal tem sido muitíssimo mal tratada deste nosso vizinho, talvez tão judiada quanto a porção brasileira. Focos de queimadas foram presenciados de tempo em tempo, áreas sendo desmatadas e invadidas por grandes equipamentos de mineração eram freqüentemente visualizas. Visões tristes e deprimentes. Definitivamente é pouco promissora a sobrevivência da maior floresta tropical do mundo.
Menos de uma hora de trégua e uma copiosa chuva nos alcançou. Nós do carro de apoio não fomos muito incomodados, mas os nossos parceiros de motocicletas, apesar de toda a indumentária – botas e luvas à prova d’água, bem como calças e jaquetas de “Cordura” – acabaram ficando bastante molhados. O pior que isto iria criar efeitos quase fatais para um de nossos amigos.
Ao terminar o trecho da Amazônia peruana iniciou-se a subida da pré-cordilheira, porém creio que não seria inadequado denominar este trecho de martírio peruano!
Para tornar uma história longa em um conto resumido, vamos aos fatos:
A nossa camionete começou a esquentar e a render muito pouco, subindo a cordilheira lentamente. O consumo de combustível aumentou violentamente. Não encontrávamos postos de abastecimento de maneira nenhuma. Local para almoçar não havia. O frio intensificava, mas o aquecimento da camionete não podia ser ligado, pois o choque térmico provocava e intensificava um trinco no pára-brisa, vidro este que ficava cada vez mais embaçado e, como sempre pode ficar pior, adentramos a um intenso nevoeiro. Visão zero!
Quando finalmente o nevoeiro nos abandonou, fomos brindados com uma nevasca.
No tocante ao aspecto pessoal estávamos bem, sem sentirmos muito o efeito da altitude, que a cada quilômetro aumentava sensivelmente. Porém, uma pontinha de fome já começava a nos incomodar e, não havia nenhum sinal de encontrarmos qualquer bar, lanchonete ou restaurante.
O nosso sétimo dia, parecia realmente fadado a ser negro!
Fomos surpreendido com a notícia alarmante de que um dos nossos amigos, o Lorde Motociclista, havia caído em uma vala de escoamento de água de degelo, que cortava a estrada. Paramos preocupadíssimos, mas ficamos aliviados quando a notícia foi esclarecida. Houve sim uma queda, mas a baixa velocidade, sem danos maiores ao motociclista e à sua bela “BMW GS Adventure 1200”. Só ficou arranhado o ego deste excelente motociclista.
Ah!, o alívio foi seguido de mais uma notícia bombástica. O Josué, estava com os pés congelados. As nossas mentes foram invadidas com os piores sentimentos possíveis: Será que a hipotermia não é mais intensa do que nos estão informando? Terão que ser amputados os dedos? DEUS meu nos ajude.
O grande susto: pés congelados
Sendo sincero, uma corrente forte de orações foi iniciada espontaneamente. E, seguramente a fé e a força das orações nos tiraram desta situação de desespero.
Em pouco minutos estávamos em um casebre de um casal indígena, o Josué já tomando um chá quente de coca, vestindo meias e botas limpas e secas, enfim havia sido um enorme susto, mas graças a Deus somente um susto.
Resolvido este impasse, nos chamou a atenção da pobreza do casal que nos recebeu, pobreza esta aliada a uma total falta de condições de higiene e de estrutura. Chão de terra batida, banheiro fora da casa sem qualquer tratamento de detritos, água encanada nem pensar. A cozinha se resumia a uma lata posta sobre um braseiro.
Nestes momentos é que entendemos o porquê destas aventuras malucas que nos metemos. Seguramente é para sairmos de nosso conforto e comodismo diário e podermos enxergar um pouco da realidade de nossos próximos, irmãos em Cristo, que vivem e são felizes com tão menos. Como somos injustos ao reclamar de qualquer contratempo financeiro, social, passional ou até mesmo no tocante a saúde. Definitivamente devemos nos resignar mais, agradecer mais e orar mais, reclamando e pedindo menos!
Voltando a viagem, a partir desta superação tudo passou a melhorar, o tempo amainou, o sol até apareceu, encontramos combustível para comprar, o trecho de subida terminou e começamos a descer, aliviando assim a exigência sobre o motor da camionete.
Importante mencionar que passamos por um comando da polícia nacional peruana, que verificou os documentos de nossos veículos, porém com muita gentileza e cordialidade.
Em aproximadamente mais duas horas de viagem chegamos em Cuzco, cidade histórica e de trânsito quase caótico. No caminho ao hotel acabamos por presenciar a um atropelamento, porém aparentemente sem maiores conseqüências, pois o pedestre vitimado (uma senhora de idade) foi levantando e terminou de atravessar a avenida caminhando.
A chegada ao hotel acabou ocorrendo em torno de vinte horas, após praticamente doze horas de viagem.
No entanto o prazer de encontrar as simpáticas esposas de três de nossos amigos, o alívio de um reconfortante banho quente e finalmente, o prazer de um excelente jantar regado a vinho tinto chileno, acabou por transformar as venturas e desventuras do dia em meras lembranças e histórias a serem contadas.
Obrigado meu Deus por poder vivenciar tudo isto!!!!
Luiz Fonseca 

Um comentário:
Gentem ! estou abismados com os relatos. Juntei a turma em torno do computer.... e estamos dicutindo os fatos.
Graças a Deus que estão todos bem.
Abraços
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